Flutuando…

Por Jacqueline Lafloufa

Prezado navegante,

Depois de uma interessante iniciativa e de algumas publicações, os Hermenautas resolveram se separar e seguir “carreira solo”. A experiência de uma “banda” de escritores foi boa, mas cada um tem um objetivo, uma rotina, e os Hermenautas resolveram que seguiriam seus rumos individualmente.

Todos os artigos deverão ficar por aqui, mas não haverão novas atualizações.

Agradeço aos leitores, aos comentaristas, e nos vemos em outras águas virtuais.

Continuo carreira solo no Pensamenteando, o Werner prossegue no Ali quid pro quid e o Tomaz segue no Folha Branca

DailyLit, literatura diária

Por Jacqueline Lafloufa

No ritmo das boas novas do mundo cibernético para a literatura, apresento a vocês o DailyLit.

Daily Lit
www.dailylit.com

Não é um serviço extremamente moderno, visto que o site da Fuvest já oferecia isso há algum tempo, mas ainda assim este está melhor estruturado. O DailyLit é um site que se propõe a disponibilizar livros em pequenas partes, que podem ser lidas em questão de minutos, e enviar por email para os leitores ou disponibilizar um feed RSS do livro com exclusividade para quem quiser ler. A idéia é atingir as pessoas que lêem muito o dia inteiro, entretanto não encontram tempo hábil para fazer uma boa leitura de um livro. Normalmente, são profissionais que acessam email diariamente, que tem um PDA, Blackberry ou um SmartPhone e que querem aproveitar algum tempo no seu dia para ler alguma obra literária.Existem diversas obras já disponíveis de forma gratuita (em inglês) como Moby Dick, Madame Bovary, e títulos de Freud, James Joyce e D. H. Lawrence. Os livros são divididos em partes que possam ser lidas em 5 minutos (em média), e assim são disponibilizadas para o leitor. Caso ele tenha mais tempo disponível, pode pedir pela próxima parte. Fácil assim. Algumas leituras podem precisar de bastante tempo: Crime e Castigo, de Dostoiévsky, por exemplo, é composto por 241 partes. Lendo 3 partes por semana, serão necessários quase dois anos pra finalizar o livro. Então vale lembrar de começar por um livro mais curtinho, para poder acostumar com a leitura em dispositivos diferentes do papel.

Acreditem em mim: pra quem trabalha, muitas vezes é frustrante não ter tempo de ler um bom livro. E essa pequenas leituras fazem essa frustração ir embora rapidinho.
E parece uma ótima forma de pessoas que não gostam de leituras muito extensas fora do papel tomarem familiaridade com a leitura online, e apreciarem essa mais nova forma de biblioteca!

| Veja notícia sobre o DailyLit no Blue Bus

Sobre livros e textos

Por Jacqueline Lafloufa e Werner Plaas

Digital serial killer?
A primeira vítima da tecnologia digital foi a máquina de escrever, em seguida sucumbiram o LP, o tape, o videocassete e o CD. O negativo fotográfico resistiu enquanto pôde, mas afinal também jogou a toalha. Será que a tecnologia digital também será capaz de aniquilar a mídia impressa?

Achamos que o livro não vai morrer; o que vai mudar decisivamente é a forma como lidamos com o objeto livro.

O atual caminho do livro
Até chegar nas mãos do leitor, o livro passa por um longo processo de produção, revisão, controle e distribuição. Conhecer esse caminho pode ajudar a desvendar algumas questões cruciais. Quando o original chega à editora, ela passa por um processo de seleção, executado por um editor, que deve avaliar se ela se enquadra na linha editorial da empresa e tentar prever a repercussão dela (numa editora pública, deve-se pensar na repercussão acadêmica da obra, enquanto a editora comercial avalia o retorno financeiro). Depois de aprovada, a obra passa por revisão, diagramação e arte. Todos esses procedimentos devem ser aprovados tanto pelo autor como pelo editor responsável, só então a publicação pode ser impressa. A etapa de impressão é bastante delicada e cara, devido principalmente ao custo do papel. Por isso, normalmente se faz uma prova da impressão antes de mandar tudo para a máquina. A prova é de baixa qualidade, mas bastante útil para conferir margens, cortes, ordem das páginas e outros detalhes mais.
É na distribuição que as coisas se complicam, pois como a editora precisa bancar o custo produção, ela projeta um preço de venda que possa ser lucrativo. E assim distribui as publicações, em regime de consignação, às livrarias. Acontece que as livrarias exigem um desconto mínimo de 50% sobre o preço de venda estipulado pela editora. Ou seja, se o custo de produção de um livro for R$ 20, e a editora projetar o preço de venda para R$ 100, a livraria pagará apenas R$ 50 reais por ele. Dessa forma, a editora se vê forçada a dobrar ou triplicar o preço estipulado de venda, para receber o valor justo.
É por isso que os livros no Brasil são cronicamente caros.
Então você pergunta: “Por que as editoras não vendem diretamente para os leitores?” Elas até podem, e algumas até o fazem, mas isso causa um impasse diplomático entre as editoras e as livrarias distribuidoras. As livrarias podem, por exemplo, promover um boicote a editoras que façam vendas diretas aos leitores, pois isso atrapalha a dinâmica dos negócios. Assim, as editoras ficam amarradas aos distribuidores, que tem uma maior abrangência de público.

O livro genérico
Num futuro não tão longínquo, ali na salinha onde se oferecem serviços de fotocópias, existirá um equipamento da mesma dimensão da atual fotocopiadora que terá a capacidade de produzir livros genéricos na hora: impressão frente e verso a laser em courier new, com capinha plastificada e as folhas coladas. O preço incluirá a parcela de direitos autorais, como se dá hoje ao comprar uma música legalmente pela internet, como na iTunes Store.

É evidente que as gravadoras, ops, as editoras vão tentar adiar este momento tanto quanto puderem, com boicotes e ameças, mas será inevitável.

Embora as editoras e livrarias aleguem que isto implodiria seus negócios, sempre haverá espaço para o livro encadernado, bem acabado e cheiroso, objeto de fetiche dos leitores. Talvez o preço do livro encadernado até suba, mas não deixará de ter compradores.

A possibilidade de fazer uma cópia genérica talvez reduza, mas não vai extinguir a venda de livros bem acabados. Autores, livrarias e editoras terão que se adaptar.

O sublime papel
Se o objetivo das editoras de universidade sérias é difundir obras de qualidade inegável, selecionadas com grande rigor acadêmico, por que não simplesmente disponibilizar os arquivos em pdf no site da própria editora para quem quiser comprar para baixar? Já que ela recebe verba da universidade, poderia aplicar parte do dinheiro na pré-produção, ou seja, com tradução, direitos autorais, revisão e seleção de boa qualidade.

E além do arquivo no site, poderia se fazer uma produção chique em papel e mantê-la em estoque.

A versão em papel certamente seria mais cara e seria vendida on-line ou off-line (em lojas físicas), como em qualquer livraria. É evidente que as distribuidoras e livrarias também vão tentar boicotar esta idéia com unhas e dentes.
Por enquanto elas detêm todo o poder, como as gravadoras de música detinham.
Será apenas uma questão de tempo para que a situação se altere?

A Amazon vai secar?
Atualmente as grandes livrarias on-line como a Livraria Cultura e a Amazon funcionam como os principais portais para se achar livros para comprar.

Parece-nos que o Google Booksearch poderia quebrar este paradigma, pois este serviço gratuito do Google informa a localização dos livros para compra, empréstimo, ou impressão integral, caso já não esteja mais protegido por direitos autorais.
As reações das editoras ao Google Booksearch têm sido violentas, e algumas já estão processando o Google. A discussão é quente.

Direitos autorais apenas para a elite
Acreditamos que um escritor poderá ganhar dinheiro escrevendo e publicando best-sellers de papel em editoras famosas, mas serão apenas os mega-stars. Autores que ainda estão chafurdando no limbo do ostracismo terão que construir sua notoriedade na internet.
E de certa forma isso já está acontecendo. Existem hoje diversos autores conhecidos na internet, que estão ganhando “status”. Eles distribuem suas obras em sites, blogs ou em formato digital interativo (que possibilita até mesmo ver as páginas virando) e assim vão mostrando seu talento, até serem reconhecidos. Não são raros os casos de blogs que viraram livros, como por exemplo o Balde de Gelo.
Não adianta ter nojo do mercado e da banalidade, esta é a nova lei da selva.
Não será possível viver de direitos autorais de venda de livros de papel exceto se você for um Paulo Coelho, que agrada a todos, ou quando você tiver chegado ao topo do Olimpo do cânone literário.

Quem quer comprar?
Há quem diga que se o texto está disponível de graça na internet, ninguém vai comprar o livro de papel.
Não necessariamente.
Muitos ouvintes de música não dispensam ouvir as músicas no cd original, pois a qualidade do som, com os detalhes de graves e agudos é melhor do que num mp3 baixado da internet.

Brochuras e discos sempre serão comprados por leitores e ouvintes exigentes, mas vão se tornar um produtos preciosos.

Nós já mudamos a forma como lidamos com a informação, imagens, sons, textos e com a comunicação interpessoal.
E tudo isso graças a internet. E pra quem acha que tudo isso é o apocalipse, fica a frase de Nietzsche:
É necessário o caos para que possa surgir uma estrela cintilante“.

Revista Digital

Por Jacqueline Lafloufa

Já imaginou se você pudesse realmente folhear uma revista pelo computador?
Não precisa mais ficar na imaginação, porque é assim que funciona a revista Pix. Você pode passar as páginas clicando nos cantos inferiores ou mesmo arrastando a página. É muito divertido.

revista Pix
Virando páginas na revista Pix

Mas se você não gostar de uma leitura online, você também pode receber a Pix em casa, pagando somente a taxa de entrega. Uma ótima idéia.

E pra quem gostou de virar páginas online, vai a dica de livros digitais, que o site Cronópios disponibiliza. São os livros em bits do Projeto editorial do site. Vale a pena conferir!

CONTRACOMUNICAÇÃO – A desmistificação da arte na era da comunicação eletrônica.

Por Leonardo Saraiva

“Acho que ele ainda acredita na Grande Arte” – Pignatari sobre Gullar.

 

Décio Pignatari é advogado, publicitário, professor e ensaísta. Ah, sim, poeta também; mas segundo as idéias expostas em seu livro CONTRACOMUNICAÇÃO (a edição que eu li é de 1973), não é versista. Pois, segundo ele, estamos na “crise do verso”, algo que encara como um grande paradigma da comunicação poética. Baseando-nos em valores ultrapassados e estáticos, Pignatari diz que estamos deixando de lado grandes nomes (cita Sousândrade, Volpi e Oswald) para valorizar outros não tão grandes assim (Mário, Portinari, Castro Alves e Chico Buarque). As elites encarregadas da seleção de um cânone seriam obsoletas, conservadoras e carentes de informação estrutural; ele escreve que “a poesia brasileira continua a se analisada pelo seu ‘conteúdo’: (…) já se viu coisa mais ridícula?”.

Apesar de não concordar muito com as propostas concretistas do senhor Pignatari, devo admitir que existem várias questões pertinentes em seu livro. Grande parte dessas preocupações são relacionadas à Comunicação artística (o “C” maiúsculo é meu) inserida no contexto contemporâneo, onde temos meios de propagação informativa de massa, como televisão e computadores (sua previsão a respeito da importância destes é digna de aplausos). Quais as formas de utilizar as capacidades audio-táctil-visuais desses meios em prol da transmissão da arte? Essa é uma pergunta que grita em várias páginas do seu livro. Uma boa pergunta.

Falando de “forma-conteúdo” (e não “forma E conteúdo), o escritor também erige considerações interessantíssimas, e utiliza o famoso conceito de Marshall McLuhan (“o meio é a mensagem”) para julgar diversas manifestações artísticas e comunicativas. O grande problema de Pignatari surge quando tenta responder a sua questão no âmbito da poesia. Ele acerta bastante (e quase me converto à sua religião) quando cita Poe e seu “know-how” da composição poética; mas peca em momentos mais radicais do livro, que defendem a poesia “ready-made” e acabam gerando frases como esta: “não há mais tempo para textos, só para títulos”. Décio me confunde ao ficar entre duas alternativas diametralmente opostas: a poesia de fácil digestão e rápido consumo (poema-visual, poema-interativo, etc) e a poesia de linguagem própria, intricada, labiríntica (como Áporo, de Drummond). De qualquer forma, as duas alternativas pessoalmente me repugnam. Sou bem conservador, e creio que a poesia é feita de língua, não de linguagem (contrariando o senhor Pignatari). De decassílabos, e não de aliterações verticais.

Fiquei com a impressão geral de que, na conjuntura contemporânea de comunicação, bombardeados que somos por informações de todos os tipos (jornalísticas, publicitárias, especializadas), temos que adaptar a poesia ao dinamismo característico dessa época. Adaptá-la através de “estruturação significante”, onde o meio transmissor do poema (sua disposição no papel) fosse, por si só, um suporte da significação. Conteúdo e Significado assumem posições tão distintas em Décio que, para a total compreensão de suas idéias, só mesmo lendo o livro (ou conversando com ele na mesa de um bar). Acredito que as considerações estruturais (não estruturalistas!) de Pignatari são raras e caras como o tempero na Idade Média – mas ele está cozinhando uma panela de arroz com um quilo de sal.

Em outros momentos, discorrendo sobre o modelo televisivo da TV Cultura, Pignatari é sobriamente crítico, apontando erros e propondo soluções. Observando o modelo de universidades, que separam o meio acadêmico teórico da prática exigida pelo mercado, Décio cutuca a ferida de forma espetacular.

No geral, o livro merece leitura atenta e respeitosa. Apesar de ser uma panacéia geral de assuntos pouco conectados entre si (considerações sobre o modelo universitário, entrevistas, críticas à comunicação televisiva, ensaios, destrinchamentos poéticos, quadrinhos dispersos e crônicas de futebol!), possui muitos pontos curiosos e inteligentes. Mas é, na minha humilde opinião pessoal, poeticamente fracassado.

O caso da Biografia não-autorizada de Roberto Carlos

Por Jacqueline Lafloufa

Supostamente, as pessoas deveriam aprender com os erros alheios. Mas nem sempre isso acontece. Haja visto que o “rei” Roberto Carlos incorreu no mesmo erro que a modelo Daniela Cicarelli: proibir algo só aumenta o burburinho em torno da coisa.

O jornalista e fã Paulo César de Araujo decidiu escrever um livro contando a história de seu ídolo, que foiRC em detalhes lançado em 2 de dezembro de 2006 sob o título “Roberto Carlos em detalhes”. Acontece que o “rei” não gostou do conteúdo da obra, sentindo-se ofendido pelo nível de descrição de sua intimidade que a biografia continha. De qualquer forma, o livro poderia ser lançado como biografia não-autorizada. Existem muitas delas, e, normalmente, as personalidades processam-nas por calúnia e difamação, ao provar que algo que foi dito não é verídico. Acabam, assim, ganhando “algum troco” com as besteiras que os autores das biografias possam vir a dizer.

Só que o nosso ilustre RC decidiu entrar com dois processos na justiça, um contra a editora Planeta, que publicou o livro, e outro contra Paulo César, o autor. Num acordo, visando o menor dano possível à editora Planeta (principalmente), ficou decidido que o estoque dos livros na editora, cerca de 11 mil exemplares, seria entregue à Roberto Carlos. Os outros exemplares também deveriam ser recolhidos das livrarias, mas elas podem se recusar a devolver as obras adquiridas. Nesse caso, a editora se comprometeu a resarcir o “rei” se ele se dispuser a comprar esses exemplares e apresentar a nota fiscal.

O problema dessa questão toda é que a proibição nem sempre é a melhor saída: acaba, na verdade, se tornando um marketing do produto. Basta relembrar o episódio do vídeo de Daniela Cicarelli com seu namorado em uma praia espanhola – nem todo mundo sabia, mas foi só o YouTube ser bloqueado que todos passaram a saber do assunto.

Mas, como gato escaldado tem medo de água fria, o mundo cibernético já se precaveu. Existem links para e-books do livro “Roberto Carlos em detalhes”, mas ele também está sendo enviado por email, uma forma de troca de dados que não pode, a princípio, ser filtrada ou bloqueada. Assim, ao invés de fazer com que o livro não ficasse tão conhecido por retirá-lo das livrarias, RC acaba criando uma maior curiosidade em torno da obra. Existem, inclusive, estabelecimentos que se recusaram a devolver os exemplares para a editora Planeta, e agora passam a vender o livro por um valor mais elevado.

rc vitrine
Roberto Carlos em detalhes na livraria Nobel, na Rua Augusta

Para escritores, fica o medo da censura que acontece até mesmo dentro das próprias editoras. Fica o receio de não se ver amparado legalmente em sua profissão. Os leitores tornam-se apreensivos, questionando-se se estão à par da verdade ou de um fato ‘maquiado’. Mas acredito que a principal mensagem que fica de tudo isso é que a saída nem sempre é utilizar-se da força – no caso de RC, da força que seu nome tem – mas sim de jeito. Além de macular a própria imagem, Roberto Carlos está indo na contra-mão de seus objetivos, colocando um letreiro piscante sobre a obra que ele queria esconder.

| Saiba mais no G1 e em uma entrevista que a IstoÉ fez com Paulo César Araújo

Blue Bus, a informação em notas curtas pro seu dia a dia

Por Jacqueline Lafloufa

O Jába está aqui pra isso: pra te mostrar boas coisas pra ler no seu dia-a-dia.
E como a internet já virou rotina pra muita gente, aqui vai uma dica de site pra você se manter atualizado de forma rápida e informal: Blue Bus. Lá, você encontra notícias variadas, com um leve enfoque para a área de marketing e publicidade, mas com uma linguagem bem acessível para todos. Segundo os idealizadores do Blue Bus, a idéia é ser como um ônbus, ‘levar as pessoas aos lugares’, através de notas e tiradas para o dia a dia. O Blue Bus também conta sempre com a participação dos leitores, que enviam notícias e comentários que algumas vezes são publicados. No tráfego da web, vale muito pegar esse ônibus!


www.bluebus.com.br
Desde 1995 publicando notas curtas sobre quase tudo.

Autodidatismo em belas letras estrangeiras

Por Jacqueline Lafloufa

Lembra daqueles cursos de idiomas da editora Globo, que eram vendidos por fascículos, e acompanhavamcursos globo idiomas uma in-crí-vel fita k7? Eu lembro de ter visto pessoas colecionando os fascículos, e na verdade me surpreendi ao procurar por esses cursos no Mercado Livre: o preço de venda pode ultrapassar a casa dos R$100. Com o tempo, cursos como esse pararam de ser lançados, mas podem ser encontrados agora em sebos e lojas de livros usados.

De qualquer maneira, sempre há gente querendo aprender e gente querendo ensinar. O site do canal alemão Deutsche Welle oferece uma variedade grande de notícias em alemão, tanto em áudio quanto em texto, além de oferecer um curso nos moldes do curso de idiomas da editora Globo, só que atualizado: em forma de podcasts.

O curso “Deutsche – warum nicht?” possui arquivos de áudio mp3, que podem ser escutados no computador ou num mp3player, e também têm arquivos pdf com uma espécie de “teoria” da aula em áudio. Depois do “Deutsche – warum nicht”, existem ainda mais dois níveis de aulas; esse tipo de iniciativa visa expandir o conhecimento do alemão de forma bastante autodidata.

Mas não precisa achar que é uma idéia mirabolante dos alemães para dominar o mundo. Porque se for, passaremos a culpar também outras tantas nacionalidades. Existe uma série de podcasts chamada “my daily phrase“, que ensina expressões básicas em idiomas como italiano, alemão e espanhol. Entretanto é um projeto que visa o público americano, portanto as “audio-aulas” são ministradas em inglês – inglês esse até fácil de entender, visto que não são americanos que fazem a locução.

Se você é do tipo que se interessa por outros idiomas, vale a pena dar uma “escutadinha”. No site Open Culture você pode encontrar links para podcasts e mini-cursos em diversos idiomas, como o espanhol, francês e alemão.

Imperativo envergonhado

Por Werner Plaas

O imperativo serve para dar ordens e conselhos. Os americanos usam e abusam do imperativo, basta lembrar aquele texto, ou música, ou videoclip, não sei ao certo: “Use filtro solar“, que é uma longa lista de imperativos de sugestão. Ultimamente eles têm usado suas prerrogativas imperiais com bastante sem-cerimônia tanto para sugerir como para dar ordens. Diferente de nós, brasileiros, que nos julgamos tão informais. Recentemente escutei uma mulher dizer à empregada:

* Joana, você limpa os armários hoje.

Pontuei esta frase como uma afirmação, mas justamente o que me chamou a atenção foi a dificuldade de estabelecer se o que ouvi foi realmente uma afirmação ou uma interrogação (que caracterizaria um pedido), pois no final a mulher incluiu um leve meneio com a cabeça, que minha experiência traduziu como um gesto de confirmação de compreensão do que foi dito. Este gesto também reforça pedidos:

* Entendeu?
* Você lava a louça para mim hoje?

Suponho que se fosse uma ordem inequívoca, ela soaria como:

* Joana, limpa/limpe os armários hoje, por favor.

Já um pedido pode ter vários graus de assertividade, e freqüentemente escuto a inclusão de um não como ênfase de polidez:

* Você não lava a louça para mim hoje?

Portanto, se fosse um pedido, a frase deveria conter alguma marca inequívoca para diferenciá-lo de uma ordem, senão quem escuta fica sem saber se tem a opção de aceitar ou recusar.

A primeira frase me soou estranha porque contém simultaneamente marcas de pedido e ordem, como se fosse um imperativo envergonhado.

Será que foi uma ocorrência isolada? Acho que não, pois de modo análogo, não seria raro escutar um(a) professor(a) anunciar ao final da aula:

* Então pessoal, para próxima aula, o texto do Fulano.

Trata-se de uma frase que nem verbo tem, mas que contém algo que também se arrasta no limbo entre ordem e pedido. O sentido exato deste pedido-ordem só pode ser recuperado pelo contexto anterior, pois não está claro o que se espera do texto do Fulano. Só trazer o texto para ler em classe? É para ler o texto em casa? Escrever uma resenha? Depende do que foi “combinado” num contexto anterior, em que o imperativo também pode ter sido omitido.

A interpretação que faço, ainda sem qualquer evidência sistemática, é que há uma tendência dos brasileiros de vexar-se numa situação em que ocupa a posição de dar ordens. Um receio de parecer autoritário em excesso ao expressar sua ordens diretamente com o uso do imperativo.

Algo como um fantasma nos lembrando que ordens são coisas feias. Ecos do passado que interferem na nossa língua hoje, talvez.

Entretanto, ordens precisam ser dadas e serviços precisam ser executados. (Aliás, a voz passiva também é legal para dissolver as marcas de quem faz o quê).
Para conciliar o irreconciliável, temos pedidos embutidos com a expectativa de ordens. E ai de quem não atendê-los.

Werner Plaas não é graduado em Estudos Literários nem em Lingüística ainda.

A Invenção de Bioy

Por: Fabio Martinelli Casemiro

 

Ao amigo Fábio San Juan
e à Prof. Dra. Míriam V. Gárate.

Numa ilha, um prisioneiro descobre uma máquina capaz de projetar imagens perfeitas de pessoas e de coisas. A mímese perfeita, a odiada por Platão. Aquela de que tanto se orgulhavam os gregos: a vaca berrava pelo camponês de mármore, que carregava seu bezerro.
O que me intriga a todo tempo durante a leitura da obra A Invenção de Morel é que o protagonista não destrói a máquina mimética. Num primeiro momento ele tenta. Possibilidades são abertas ao longo da trama de forma que ele possa tentar escapar da ilha, concentrar-se numa fuga odisséica. Mas, na verdade, seu ciúme não é do possível romance entre os personagens fantasmagóricos de Morel e de Faustine. (Aliás, Morel é alusão a “Moreau” e Faustine é a própria personificação do “Fausto” e seu “Mefistófeles”). O ciume do protagonista é da fantasia. É a fantasia que o impede de acessar Faustine, poupando-o, inclusive, de um possível desprezo por parte da amada. Se assim ocorresse, seu desprezo seria prazeroso, porque seria consciente e proposital… (Não nos pareceria mais tênue o desprezo inconsciente de Faustine, do que o desprezo consciente? Para o protagonista, não: ele prefere o sonho que pode ser frustrado à frustração que não pode ser sonho).
A Máquina do Dr. Morel é uma máquina mimética; o amor do protagonista imita um amor real. Seu amor é tão projeção quanto Faustine é projeção. O protagonista não é menos um projetor do que a invenção mefistotélica de Morel. O que ele sente pelo mecanismo inicia-se como ódio, mas em seguida migra para o desejo irrefreável de comungar com ele, abandonar sua própria liberdade, sua própria identidade para mesclar-se ao seu objeto de “ódio”. Ela, a máquina, é a possibilidade de gozo e de morte, a fusão de Eros e Thanatos, o prazer para além do real, a solução do triângulo mimético girardiano. É, assim, a força motriz, os fios que sustentam um títere a muito tempo inventado na história do pensamento ocidental: o leitor.
A Invenção de Morel não precisa ser inventada, como quer destacar Carpeaux no posfácio da edição brasileira: ela é a própria obra literária. O protagonista de A Invenção de Morel é o leitor que, compulsivamente, arrasta a obra para o banheiro, para a fila do banco, trocando a sua vida real (e sempre desinteressante por mais prazerosa que seja) pelas páginas da ficção. É o leitor que funda comunidades na internet para consagrar suas obras e seus autores; que viaja nas narrativas realistas indo aos lugares onde habitavam, na contiguidade da ficção, seus personagens prediletos. Formam sociedades, seitas, são os jovens leitores de RPG, Harry-Potter, O Código Da Vinci que querem se vestir, viver, extrair máximas para a vida prática ou ainda dar continuidade às mirabolantes descobertas extraídas das saborosas peripécias ficcionais.
A arte não imita a vida, mas a recria; ela possibilita um outro lugar do real que, quando levado às últimas consequências, para além das fronteiras entre o real e o ficcional, acaba por criar três categorias patológicas de nossa sociedade: o autor, o crítico literário e o esquizofrênico (e, por vezes, os três na mesma pessoa).
A máquina de Morel já foi inventada, Platão tremia de medo das ilusões da mimesis, Aristóteles rezava, em A Arte Poética, sobre os efeitos da catarse e Freud propôs um sistema terapêutico que colocasse o indivíduo no controle (ou na consciência sobre a impossibilidade do controle) de seus mecanismos projetivos, através da (des/re)construção da narrativa do indivíduo sobre si mesmo. O ser humano, sempre, conscientemente ou não, está preso às suas construções ficcionais. Não há sentido na vida. O primeiro problema do ser humano é o suicídio. Se decidimos contorná-lo (ou o colocarmos em stand-by), o problema que o segue é criarmos um sentido para a vida. (É o que equaciona A. Camus na primeira página de O Mito de Sísifo).
A grande consolidação do mecanismo ficcional na história da humanidade é a invenção do livro. O livro é a invenção de Morel. A grande proliferação desse mecanismo se deve ao bom e velho Guttemberg. Rádio, cinema, TV, internet são os desdobramentos imediatos dele. Ao protagonista da obra de Bioy é dada a escolha: “a morte na realidade, ou a vida na ficção?” Assim como o protagonista, todos os seres humanos, todos os dias de nossa vida (de uma forma especial os escritores, os teóricos da literatura e os esquizofrênicos) escolhemos a vida pela ficção.

 

 

Fábio Martinelli Casemiro
é Professor de História e mestrando
em Teoria e História Literária pelo
IEL/UNICAMP.
biophah@hotmail.com
www.balanagulha.net

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