| Por Leonardo Saraiva
Numa obra literária, o que deve ser considerado mais relevante; a forma ou o conteúdo? Essas duas características são inseparáveis e se completam reciprocamente, devendo ser analisadas sempre juntas e sem distinções de importância, ou seriam elas duas tendências completamente distintas que precisam ser analisadas isoladamente?
Não há “resposta correta” para esses questionamentos retóricos; apenas opiniões que divergem, idéias que lutam para se impôr no meio literário como mais adequadas e pessoas que, atacadas por assomos de egocentrismo, tomam partido numa luta infindável e infundada, forçando a aceitação geral de uma solução deste problema que, por definição, permite várias saídas. Nós, críticos e teóricos da arte literária, não devemos impor nada. Discutir a Teoria Literária pode ser frutífero e interessante; existe a maravilhosa possibilidade da abertura de novas linhas de pensamento, da concepção de visões inéditas que facilitam e estimulam a produção escrita. Refletir sobre a forma e o conteúdo, sobre essa dualidade de um mesmo objeto, certamente pode auxiliar um escritor a reler sua obra com outros critérios, a aperfeiçoá-la, a torná-la mais completa e agradável (ou desagradável, dependendo da sua intenção), enfim, a fazê-la evoluir. É pensando nessa troca de experiências que humildemente exponho aqui minhas crenças sobre forma e conteúdo.
É comum as pessoas acreditarem que a mensagem é a única coisa que importa num texto literário (principalmente quando se trata de poemas). Não concordo com isso. Um poema pode ser belíssimo falando de um vaso chinês, e outro pode ser enjoativo falando do amor. Todavia, acho ser consenso geral que o amor é um assunto mais interessante e sublime que um vaso chinês. Por outro lado, sinto que a literatura não sobrevive de palavras raras e organizações sintáticas intrincadas e extasiantes, mesmo que algumas vezes esses estilos sejam compensadores (quando os compreendemos). Chego então num impasse sem ainda ter defendido a forma nem o conteúdo. Mas vou avançar um pouco o raciocínio e depois voltar a essa questão.
Quando observo quadros, não me atenho muito ao que está lá pintado, mas à maneira como aquilo foi pintado. Picasso pintou mulheres de uma forma absurdamente diferente dos pintores renascentistas, mas todos eles pintavam mulheres. Outros artistas tinham predileção por quadros paisagísticos, por natureza morta, etc. Pergunto: há conteúdo em paisagens ou em frutas e pães? Há, no máximo, efeitos causados pelo teor das paisagens (um campo ensolarado e fresco é bem diferente de um calabouço úmido e frio), mas efeitos estes que já existiam na nossa mente, sendo apenas estimulados pelas imagens. E as mulheres deixam de ser mulheres por estarem representadas através do cubismo ou do classicismo? Por essas razões, tendo a preferir, em quadros, a forma ao conteúdo.
Escutando músicas, dificilmente presto atenção às letras. Recentemente descobri a magnífica música japonesa, mesmo sem saber patavinas de japonês. Ali, está óbvio que existe (para mim) apenas a forma, e a forma (sem nenhum conteúdo!) é capaz de evocar sentimentos. Imaginem então música clássica, puramente instrumental: forma, só forma! Assim, creio que em mais uma categoria de arte a forma se sobrepõe ao conteúdo.
Porém, na literatura, vejo que o que mais me atrai são livros que tratam sobre determinado assunto. Voltando ao vaso chinês, encontrei-o por acaso; se me fosse proposto comprar um livro que contivesse um poema que versasse sobre vasos chineses, jamais o compraria. Observem, leitores, como fiz um juízo de valor baseado apenas no conteúdo, pois não perguntei se eram sonetos, com métrica decassilábica e rítmo jâmbico. Repudio textos que não trabalham a forma, a maneira como o conteúdo será transmitido ao leitor, mas priorizo indubitavelmente o conteúdo nas manifestações escritas.
Apareceu dessas divagações uma teoria: a música e a pintura são artes que funcionam a partir dos estímulos diretos dos sentidos (respectivamente audição e visão). Não se pode ouvir um quadro ou ler uma música (pode-se ler a partitura e a letra dela, mas certamente não é a mesma coisa). Por essa natureza, a forma é perbecida mais facilmente, e atinge o espectador num arrebatamento próprio e singular. Na literatura, porém, você pode ler (ou seja, usa os olhos), ouvir (usando os ouvidos) ou passar os dedos (supondo o conhecimento de braille, usamos o tato), etc etc, contanto que a comunicação seja estabelecida e o texto seja assimilado. Consequentemente, a forma se apresenta como um suporte ao conteúdo, nublada, menos perceptível. Sem o suporte, não pode haver a construção de absolutamente nada; mas uma vez encontrados os alicerces corretos, o conteúdo se ergue em todo seu esplendor, aparecendo em primeiro plano em detrimento da forma.
Mais um exemplo: no livro À Rebours, o personagem Des Essaints cria um “orgão de boca”, onde, a partir de determinadas experiências paladares com bebidas, simula uma “orquestra interna”, com correspondências diretas entre os sabores, os timbres e os tons dos instrumentos musicais; a partir de uma linguagem inusitada, cria uma nova forma que evoca conteúdos; mas a forma é o pontapé inicial de toda e qualquer assimilação de sentido.
A questão é que as artes sensoriais tem um apelo especial à forma; mas a Literatura (como diria Mallarmé) é feita de palavras, e palavras são significantes, imbuídas de conteúdos próprios e diretos. Livrar-se do conteúdo me parece um apelo contrário à própria essência das palavras, algo básico ao texto escrito.
Sou a favor do experimentalismo estilístico na prosa que favoreça o bom entendimento do texto. Sou contra a subestimação do leitor com simplificações implícitas que tornem o texto facilmente digerível, visto que não considero a literatura um divertimento ou uma distração, mas sim uma arte. Sou completamente contra a criação de joguetes de linguagem sem sentido e metáforas ininteligíveis de autores que se supõem muito espertos ocultando tudo, pois literatura não é um enigma, sendo eu igualmente contra a exposição desmascarada, boba e sem graça de idéias e sentimentos piegas. Repudio, até os ossos, certos modernistas que reduzem a Literatura à um círculo de trocadilhos fonéticos imbecis. Sou a favor da multiplicidade interpretativa. Você, leitor, qual sua posição em relação a tudo isso?
Acredito nada mais ter a compartilhar sobre forma e conteúdo nesse momento da minha vida.



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