A Invenção de Bioy

Por: Fabio Martinelli Casemiro

 

Ao amigo Fábio San Juan
e à Prof. Dra. Míriam V. Gárate.

Numa ilha, um prisioneiro descobre uma máquina capaz de projetar imagens perfeitas de pessoas e de coisas. A mímese perfeita, a odiada por Platão. Aquela de que tanto se orgulhavam os gregos: a vaca berrava pelo camponês de mármore, que carregava seu bezerro.
O que me intriga a todo tempo durante a leitura da obra A Invenção de Morel é que o protagonista não destrói a máquina mimética. Num primeiro momento ele tenta. Possibilidades são abertas ao longo da trama de forma que ele possa tentar escapar da ilha, concentrar-se numa fuga odisséica. Mas, na verdade, seu ciúme não é do possível romance entre os personagens fantasmagóricos de Morel e de Faustine. (Aliás, Morel é alusão a “Moreau” e Faustine é a própria personificação do “Fausto” e seu “Mefistófeles”). O ciume do protagonista é da fantasia. É a fantasia que o impede de acessar Faustine, poupando-o, inclusive, de um possível desprezo por parte da amada. Se assim ocorresse, seu desprezo seria prazeroso, porque seria consciente e proposital… (Não nos pareceria mais tênue o desprezo inconsciente de Faustine, do que o desprezo consciente? Para o protagonista, não: ele prefere o sonho que pode ser frustrado à frustração que não pode ser sonho).
A Máquina do Dr. Morel é uma máquina mimética; o amor do protagonista imita um amor real. Seu amor é tão projeção quanto Faustine é projeção. O protagonista não é menos um projetor do que a invenção mefistotélica de Morel. O que ele sente pelo mecanismo inicia-se como ódio, mas em seguida migra para o desejo irrefreável de comungar com ele, abandonar sua própria liberdade, sua própria identidade para mesclar-se ao seu objeto de “ódio”. Ela, a máquina, é a possibilidade de gozo e de morte, a fusão de Eros e Thanatos, o prazer para além do real, a solução do triângulo mimético girardiano. É, assim, a força motriz, os fios que sustentam um títere a muito tempo inventado na história do pensamento ocidental: o leitor.
A Invenção de Morel não precisa ser inventada, como quer destacar Carpeaux no posfácio da edição brasileira: ela é a própria obra literária. O protagonista de A Invenção de Morel é o leitor que, compulsivamente, arrasta a obra para o banheiro, para a fila do banco, trocando a sua vida real (e sempre desinteressante por mais prazerosa que seja) pelas páginas da ficção. É o leitor que funda comunidades na internet para consagrar suas obras e seus autores; que viaja nas narrativas realistas indo aos lugares onde habitavam, na contiguidade da ficção, seus personagens prediletos. Formam sociedades, seitas, são os jovens leitores de RPG, Harry-Potter, O Código Da Vinci que querem se vestir, viver, extrair máximas para a vida prática ou ainda dar continuidade às mirabolantes descobertas extraídas das saborosas peripécias ficcionais.
A arte não imita a vida, mas a recria; ela possibilita um outro lugar do real que, quando levado às últimas consequências, para além das fronteiras entre o real e o ficcional, acaba por criar três categorias patológicas de nossa sociedade: o autor, o crítico literário e o esquizofrênico (e, por vezes, os três na mesma pessoa).
A máquina de Morel já foi inventada, Platão tremia de medo das ilusões da mimesis, Aristóteles rezava, em A Arte Poética, sobre os efeitos da catarse e Freud propôs um sistema terapêutico que colocasse o indivíduo no controle (ou na consciência sobre a impossibilidade do controle) de seus mecanismos projetivos, através da (des/re)construção da narrativa do indivíduo sobre si mesmo. O ser humano, sempre, conscientemente ou não, está preso às suas construções ficcionais. Não há sentido na vida. O primeiro problema do ser humano é o suicídio. Se decidimos contorná-lo (ou o colocarmos em stand-by), o problema que o segue é criarmos um sentido para a vida. (É o que equaciona A. Camus na primeira página de O Mito de Sísifo).
A grande consolidação do mecanismo ficcional na história da humanidade é a invenção do livro. O livro é a invenção de Morel. A grande proliferação desse mecanismo se deve ao bom e velho Guttemberg. Rádio, cinema, TV, internet são os desdobramentos imediatos dele. Ao protagonista da obra de Bioy é dada a escolha: “a morte na realidade, ou a vida na ficção?” Assim como o protagonista, todos os seres humanos, todos os dias de nossa vida (de uma forma especial os escritores, os teóricos da literatura e os esquizofrênicos) escolhemos a vida pela ficção.

 

 

Fábio Martinelli Casemiro
é Professor de História e mestrando
em Teoria e História Literária pelo
IEL/UNICAMP.
biophah@hotmail.com
www.balanagulha.net

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