Imperativo envergonhado

Por Werner Plaas

O imperativo serve para dar ordens e conselhos. Os americanos usam e abusam do imperativo, basta lembrar aquele texto, ou música, ou videoclip, não sei ao certo: “Use filtro solar“, que é uma longa lista de imperativos de sugestão. Ultimamente eles têm usado suas prerrogativas imperiais com bastante sem-cerimônia tanto para sugerir como para dar ordens. Diferente de nós, brasileiros, que nos julgamos tão informais. Recentemente escutei uma mulher dizer à empregada:

* Joana, você limpa os armários hoje.

Pontuei esta frase como uma afirmação, mas justamente o que me chamou a atenção foi a dificuldade de estabelecer se o que ouvi foi realmente uma afirmação ou uma interrogação (que caracterizaria um pedido), pois no final a mulher incluiu um leve meneio com a cabeça, que minha experiência traduziu como um gesto de confirmação de compreensão do que foi dito. Este gesto também reforça pedidos:

* Entendeu?
* Você lava a louça para mim hoje?

Suponho que se fosse uma ordem inequívoca, ela soaria como:

* Joana, limpa/limpe os armários hoje, por favor.

Já um pedido pode ter vários graus de assertividade, e freqüentemente escuto a inclusão de um não como ênfase de polidez:

* Você não lava a louça para mim hoje?

Portanto, se fosse um pedido, a frase deveria conter alguma marca inequívoca para diferenciá-lo de uma ordem, senão quem escuta fica sem saber se tem a opção de aceitar ou recusar.

A primeira frase me soou estranha porque contém simultaneamente marcas de pedido e ordem, como se fosse um imperativo envergonhado.

Será que foi uma ocorrência isolada? Acho que não, pois de modo análogo, não seria raro escutar um(a) professor(a) anunciar ao final da aula:

* Então pessoal, para próxima aula, o texto do Fulano.

Trata-se de uma frase que nem verbo tem, mas que contém algo que também se arrasta no limbo entre ordem e pedido. O sentido exato deste pedido-ordem só pode ser recuperado pelo contexto anterior, pois não está claro o que se espera do texto do Fulano. Só trazer o texto para ler em classe? É para ler o texto em casa? Escrever uma resenha? Depende do que foi “combinado” num contexto anterior, em que o imperativo também pode ter sido omitido.

A interpretação que faço, ainda sem qualquer evidência sistemática, é que há uma tendência dos brasileiros de vexar-se numa situação em que ocupa a posição de dar ordens. Um receio de parecer autoritário em excesso ao expressar sua ordens diretamente com o uso do imperativo.

Algo como um fantasma nos lembrando que ordens são coisas feias. Ecos do passado que interferem na nossa língua hoje, talvez.

Entretanto, ordens precisam ser dadas e serviços precisam ser executados. (Aliás, a voz passiva também é legal para dissolver as marcas de quem faz o quê).
Para conciliar o irreconciliável, temos pedidos embutidos com a expectativa de ordens. E ai de quem não atendê-los.

Werner Plaas não é graduado em Estudos Literários nem em Lingüística ainda.

1 Resposta para “Imperativo envergonhado”


  1. 1 leonardo saraiva Abril 25, 2007 às 9:33 pm

    werner, werner

    suas observações são bem pertinentes.
    coisa curiosa contrapor o jeitinho simpático do brasileiro de “ordenar” com a ausência, quase sempre, do “por favor”. mesmo ordenando, um please, um s’il vous plait, um onegai não fariam muito mal. uma vez eu estava conversando com um estrangeiro platino e ele me falou que os brasileiros nao gostavam de pedir “por favor”. daí eu falei que o “por favor” estava no tom de voz: dá um áááágua (com “a” alongado e nasal). ele fez biquinho.

    somos tão informais que nem precisamos mais ordenar com polidez, ou somos mal-educados mesmo? eu nao sou chegado a sociologia, mas pra quem gosta, ta aí uma pergunta legal.

    só não gostei dessa parte –>
    “Algo como um fantasma nos lembrando que ordens são coisas feias. Ecos do passado que interferem na nossa língua hoje, talvez.”

    eu nao creio num inconsciente social estilo “raízes do brasil”. ou seria “casa grande e senzala”? xii, to desatualizado…


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