Arquivo para março \30\UTC 2007

Forma e conteúdo

| Por Leonardo Saraiva

Numa obra literária, o que deve ser considerado mais relevante; a forma ou o conteúdo? Essas duas características são inseparáveis e se completam reciprocamente, devendo ser analisadas sempre juntas e sem distinções de importância, ou seriam elas duas tendências completamente distintas que precisam ser analisadas isoladamente?

Não há “resposta correta” para esses questionamentos retóricos; apenas opiniões que divergem, idéias que lutam para se impôr no meio literário como mais adequadas e pessoas que, atacadas por assomos de egocentrismo, tomam partido numa luta infindável e infundada, forçando a aceitação geral de uma solução deste problema que, por definição, permite várias saídas. Nós, críticos e teóricos da arte literária, não devemos impor nada. Discutir a Teoria Literária pode ser frutífero e interessante; existe a maravilhosa possibilidade da abertura de novas linhas de pensamento, da concepção de visões inéditas que facilitam e estimulam a produção escrita. Refletir sobre a forma e o conteúdo, sobre essa dualidade de um mesmo objeto, certamente pode auxiliar um escritor a reler sua obra com outros critérios, a aperfeiçoá-la, a torná-la mais completa e agradável (ou desagradável, dependendo da sua intenção), enfim, a fazê-la evoluir. É pensando nessa troca de experiências que humildemente exponho aqui minhas crenças sobre forma e conteúdo.

É comum as pessoas acreditarem que a mensagem é a única coisa que importa num texto literário (principalmente quando se trata de poemas). Não concordo com isso. Um poema pode ser belíssimo falando de um vaso chinês, e outro pode ser enjoativo falando do amor. Todavia, acho ser consenso geral que o amor é um assunto mais interessante e sublime que um vaso chinês. Por outro lado, sinto que a literatura não sobrevive de palavras raras e organizações sintáticas intrincadas e extasiantes, mesmo que algumas vezes esses estilos sejam compensadores (quando os compreendemos). Chego então num impasse sem ainda ter defendido a forma nem o conteúdo. Mas vou avançar um pouco o raciocínio e depois voltar a essa questão.

Quando observo quadros, não me atenho muito ao que está lá pintado, mas à maneira como aquilo foi pintado. Picasso pintou mulheres de uma forma absurdamente diferente dos pintores renascentistas, mas todos eles pintavam mulheres. Outros artistas tinham predileção por quadros paisagísticos, por natureza morta, etc. Pergunto: há conteúdo em paisagens ou em frutas e pães? Há, no máximo, efeitos causados pelo teor das paisagens (um campo ensolarado e fresco é bem diferente de um calabouço úmido e frio), mas efeitos estes que já existiam na nossa mente, sendo apenas estimulados pelas imagens. E as mulheres deixam de ser mulheres por estarem representadas através do cubismo ou do classicismo? Por essas razões, tendo a preferir, em quadros, a forma ao conteúdo.

Escutando músicas, dificilmente presto atenção às letras. Recentemente descobri a magnífica música japonesa, mesmo sem saber patavinas de japonês. Ali, está óbvio que existe (para mim) apenas a forma, e a forma (sem nenhum conteúdo!) é capaz de evocar sentimentos. Imaginem então música clássica, puramente instrumental: forma, só forma! Assim, creio que em mais uma categoria de arte a forma se sobrepõe ao conteúdo.

Porém, na literatura, vejo que o que mais me atrai são livros que tratam sobre determinado assunto. Voltando ao vaso chinês, encontrei-o por acaso; se me fosse proposto comprar um livro que contivesse um poema que versasse sobre vasos chineses, jamais o compraria. Observem, leitores, como fiz um juízo de valor baseado apenas no conteúdo, pois não perguntei se eram sonetos, com métrica decassilábica e rítmo jâmbico. Repudio textos que não trabalham a forma, a maneira como o conteúdo será transmitido ao leitor, mas priorizo indubitavelmente o conteúdo nas manifestações escritas.

Apareceu dessas divagações uma teoria: a música e a pintura são artes que funcionam a partir dos estímulos diretos dos sentidos (respectivamente audição e visão). Não se pode ouvir um quadro ou ler uma música (pode-se ler a partitura e a letra dela, mas certamente não é a mesma coisa). Por essa natureza, a forma é perbecida mais facilmente, e atinge o espectador num arrebatamento próprio e singular. Na literatura, porém, você pode ler (ou seja, usa os olhos), ouvir (usando os ouvidos) ou passar os dedos (supondo o conhecimento de braille, usamos o tato), etc etc, contanto que a comunicação seja estabelecida e o texto seja assimilado. Consequentemente, a forma se apresenta como um suporte ao conteúdo, nublada, menos perceptível. Sem o suporte, não pode haver a construção de absolutamente nada; mas uma vez encontrados os alicerces corretos, o conteúdo se ergue em todo seu esplendor, aparecendo em primeiro plano em detrimento da forma.

Mais um exemplo: no livro À Rebours, o personagem Des Essaints cria um “orgão de boca”, onde, a partir de determinadas experiências paladares com bebidas, simula uma “orquestra interna”, com correspondências diretas entre os sabores, os timbres e os tons dos instrumentos musicais; a partir de uma linguagem inusitada, cria uma nova forma que evoca conteúdos; mas a forma é o pontapé inicial de toda e qualquer assimilação de sentido.

A questão é que as artes sensoriais tem um apelo especial à forma; mas a Literatura (como diria Mallarmé) é feita de palavras, e palavras são significantes, imbuídas de conteúdos próprios e diretos. Livrar-se do conteúdo me parece um apelo contrário à própria essência das palavras, algo básico ao texto escrito.

Sou a favor do experimentalismo estilístico na prosa que favoreça o bom entendimento do texto. Sou contra a subestimação do leitor com simplificações implícitas que tornem o texto facilmente digerível, visto que não considero a literatura um divertimento ou uma distração, mas sim uma arte. Sou completamente contra a criação de joguetes de linguagem sem sentido e metáforas ininteligíveis de autores que se supõem muito espertos ocultando tudo, pois literatura não é um enigma, sendo eu igualmente contra a exposição desmascarada, boba e sem graça de idéias e sentimentos piegas. Repudio, até os ossos, certos modernistas que reduzem a Literatura à um círculo de trocadilhos fonéticos imbecis. Sou a favor da multiplicidade interpretativa. Você, leitor, qual sua posição em relação a tudo isso?

Acredito nada mais ter a compartilhar sobre forma e conteúdo nesse momento da minha vida.

BookCrossing, a grande viagem que um livro pode fazer

| Por Jacqueline Lafloufa

Encontrar R$1 na rua é sempre bom. Mesmo que R$1 não seja exatamente uma fortuna. Imagine então encontrar um livro no banco do metrô, por exemplo. Parece bastante interessante, não?

Pois é isso que propõe o BookCrossing. As pessoas cadastram os Bookcrossingtítulos que serão “esquecidos” e assim conseguem um código, chamado BCID. Esse número deve ser colocado na contracapa do livro ou na folha de rosto, juntamente com o site do BookCrossing. Ao “esquecer” o livro, a pessoa dá dicas do lugar: “3ª carteira da 5ª fileira da sala de estudos da biblioteca”, por exemplo. Dá pra inclusive procurar os títulos que estão esquecidos próximos de você, na sua cidade. Exemplares de Edgard Allan Poe podem ser encontrados na Espanha, e alguns exemplares de Manuel Bandeira podem ser literalmente achados no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte.

No Brasil, existem cerca de 30 livros “esquecidos” em cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro. Em São Paulo, por exemplo, há um livro rodando no Shopping Vila Lobos e outro num ponto de ônibus da Vila Augusta.

A proposta BookCrossing é que, ao encontrar o livro e terminar a leitura, o felizardo que o encontrou deixe-o em algum outro lugar, para que outra pessoa o encontre. Basta inserir o BCID e alterar a “dica” de lugar onde o livro foi deixado, para que outros leitores possam encontrá-lo. Uma boa idéia de inclusão literária.

:: Para saber mais visite o site do BookCrossing!

Suassuna micronacionalista

| Por Mateus Yuri Passos

Na continuação do Romance da Pedra do Reino, Ariano Suassuna usa o estranhamento do micronacionalismo de D. Pedro Dinis Quaderna como contraponto ao resgate dos assuntos que levaram à Revolução de 30 paraibana. Com direito a plágios heráldicos.

De Samuel, plagiei a forma do Escudo, a Esfera-armilar e a Cruz da Ordem de Cristo. De Clemente, copiei a Onça Vermelha, que ficou no centro do Escudo, com a Cruz em cima e a Esfera embaixo. Mas coloquei uma orla azul no escudo, para equilibrar, com ela, a cor vermelha da Onça.De modo que foi assim que foram criados os três escudos e as três bandeiras (…)

E foi assim, também, que, na madrugada do Sábado de Aleluia para o Domingo da Ressurreição de 1938, os três Escudos apareceram pendurados nas paredes da frente e as três bandeiras tremulando ao vento em nossos jardins, sendo então fundadas, na casa de Clemente, a República Popular do Brasil, comunista; na casa de Samuel, a aristocrática República Unitária do Brasil, integralista; e sendo restaurado, na minha, o Império do Brasil.

Da História d’O Rei Degolado nas caatingas do sertão – Ao Sol da Onça Caetana.

Publicando seu livro na web

| Por Jacqueline Lafloufa

Para aqueles que sonham com a carreira e o prestígio dos escritores, a boa nova do mundo moderno é que todos podem aparecer, sem discriminação ou seleção. Se você escreve contos, poesias, romance ou o que quer que seja, está na hora de mostrar isso ao grande público web. Como? Vários jeitos.

Seguindo o estilo folhetinesco, o blogger.com ensina como publicar o seu romance em um blog gratuito, em parceria com um projeto denominado NaNoWriMo (National Novel Writing Month). Trata-se de uma espécie de campeonato entre escritores amadores, que acontece durante o mês de novembro.

Mas vale ressaltar que não é preciso se prender ao NaNoWriMo (e nem

mesmo ao blogger.com), e sim entender o conceito: você pode publicar seus textos, ou até mesmo seus futuros livros, com uma ferramenta de blog. Para manter os direitos sobre o que você escreveu, basta escolher uma licença Creative Commons para a sua publicação. Um exemplo desse tipo de publicação é o livro-blog “O Chefe”, de Ivo Patarra.

Ah, você não é fã dessas coisas de publicar na web? Não seja por lulu2isso, pois existem diversas opções. Apesar de não ser brasileiro, o Lulu (inglês) oferece um ótimo serviço: coloca seu livro para venda sob demanda. Funciona mais ou menos assim: você envia para o site o conteúdo da sua obra, e define algumas características do seu futuro livro, como as cores da impressão, o tipo de encadernação, imagem da capa, entre outros. Há a opção de decidir, inclusive, quanto você irá lucrar com a sua publicação! Logicamente que o Lulu pede uma comissãozinha, mas é o custo do serviço, não é mesmo?

Para outros tipos de publicação, como seleção de suas melhores fotos ou similares, o Blurb (também em inglês) parece mais interessante. A edição individual das páginas parece ser mais conveniente para esse tipo de publicação; também nesse serviço, é possível anunciar a venda de sua produção.

Com todas essas opções, fica claro que, nos dias de hoje, não são mais as editoras que detém o poder de fazer livros. Você mesmo pode publicar o seu. Na web ou no papel. Power to the people!!

Ferramentas para bixos

| Por Werner Plaas

LibraryThing

Recomendo para todos do IEL o excelente LibraryThing, um site onde você cataloga todos os seus livros e pode espiar a biblioteca de outros usuários.
Você pode atribuir tags aos livros como achar melhor. Uso por exemplo o tag “iel” para livros que estão na biblioteca do IEL, “ciência cognitiva” para livros sobre este tema e “xerox” para livros dos quais possuo cópia reprográfica.
Você pode atribuir o código de uma disciplina para marcar uma bibliografia específica ou criar uma lista de desejos. Também é possível adicionar comentários para cada livro.
O LibraryThing permite catalogar até 200 livros gratuitamente, e por 25 dólares você adiciona quantos livros quiser por toda a vida. Até fevereiro de 2007 já havia 10 milhões de livros cadastrados.

Google Docs

Se você usa um processador de texto do tipo Word para fazer seus trabalhos individuais ou de grupo, considere a possibilidade de usar o Google Textos e Planilhas. As principais vantagens:

  • É grátis
  • Dá acesso a todos os seus textos desde que você tenha uma conexão com a internet.
  • Tem um corretor ortográfico razoável que apenas sublinha as palavras que ele considera incorretas.
  • Várias pessoas podem editar o texto simultaneamente online. Ótimo para trabalhos em grupo onde cada membro mora em uma cidade diferente.

BoxNet

Imagine um pen drive virtual de 10 Giga. Grátis e online. E fácil de usar. BoxNet.

Manual do Bixo

A melhor referência que encontrei até agora para o absolute beginner na Unicamp é um site feito pelo pessoal do Centro Acadêmico de Computação, o Manual do Bixo. Está bem atualizado e é bastante completo.

Scrapbook

Para quem usa o Firefox, recomendo o Scrapbook, uma extensão que permite capturar páginas completas da web. É como um Favoritos com poderes ilimitados: Você pode gravar apenas uma seleção, imagens, links ou o site inteiro no seu bloco de rascunho. É muito útil para recolher e organizar as informações da web, que podem ser acessadas mesmo offline. Eu tenho uma pasta com links, sites, textos meus, pdfs, fotos, gravuras e anotações pessoais sobre Hans Staden, assunto da minha monografia. É prático pois é possível reunir todo material num só lugar, ao invés de ter arquivos espalhados a esmo pelo HD.


RSS Diálogos sem Leucó, entrevistas com escritores, críticos e exegetas.

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Vida Acadêmica

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