Indecisão Modernista

Por Leonardo Saraiva

O conceito de arte é mutável, sujeito a alterações sociais, culturais e, nos tempos contemporâneos, mercadológicas. Vimos o romance ser menosprezado como “arte menor”, nos primórdios de suas aparições, pela culta e sábia estirpe literária, e transformar-se no gênero mais popular e mais produzido do século XX. Acompanhamos a decadência da epopéia, gênero tão extensivamente comum na Grécia Arcaica, e hoje praticamente esquecido (em termos de produção). E, por fim, lamentamos as patadas e os puxões sofridos pela Poesia ao longo das alterações de escolas literárias, dos caprichos de teorizações pomposas, dos interesses e desinteresses sociais.

Sendo explícito e trocando em miúdos, quero falar da fuga modernista da arte convencional, resultado dessa vontade de seguir o fluxo de mudanças comum à arte, mas que me soa forçoso no presente caso. Escapar das regras e propor algo novo pode ser interessante em muitos casos; mas propor algo novo e ruim certamente é muito mal. E nem saber o que se propõe, de forma tão evidente e gritante (como irei expor), prova definitivamente a incapacidade do mundo moderno de realimentar as engrenagens artísticas.

Estamos nos contentando com a frase “vamos fazer algo diferente” e, na ânsia da novidade, avaliando mal o que temos às mãos. Como, Deus, diga-me como alguém pode gostar de algo que absolutamente não lhe atiça o cérebro, não lhe toca o coração, não lhe excita as entranhas? Como pode alguém gostar de algo que absolutamente não compreende, e nem pressente, nem suspeita do que pode estar ali representado? Como pode ser bom algo que não inquieta, não eleva nem repugna, ou seja, que é absolutamente indiferente?

Vamos dar dois exemplos desse tipo de “arte” que venho descrevendo aqui: na pintura, meu mais característico exemplo é Kandinsky. Ora, este exímio pintor, hiperbolizando tendências anteriores (como o cubismo de Picasso) e gostando de bolinhas e quadrados, resolveu não pintar absolutamente nada: nem reproduzir a natureza, nem distorcer o real, nem tornar sacro um ambiente, nem representar o sonho e o absurdo; não, senhores, o grande Kandinsky quis pintar bolinhas e quadrados, alternando cores aqui e ali, aparentemente aleatórias, numa lógica interna que não diz respeito nem a você nem a mim. E chamaram isso, com aplausos, de abstracionismo.

À poesia, por gentileza. Puxo da cartola o ilustre Mallarmé, que teve a idéia magnífica de fazer um poema com fontes de diferentes tamanhos, palavras espalhadas pela folha, frases desconexas e enigmáticas, de maneira que nem sabemos direito como começar a ler o negócio. Graças a Deus, ele não tinha um computador. Aí, ele morre, e algumas décadas depois surgem dois brasileiros, irmãos, que passam a apreciar muito esse tipo de manifestação escrita, e fazem uma poesia sem muito assunto, espacial, supostamente muito engenhosa, mas, na minha humilde visão, burríssima. Olhem as “crias” desse movimento iniciado pelos campos do Brasil, e tirem suas próprias conclusões: http://concretismo.zip.net/ . Ah, sim, chamaram isso de concretismo.

Vejam, senhores, vejam como os dois moviementos de esvaziamento do palpável para algo completamente infeliz e desprovido do mínimo traço de racionalidade tem, na pintura e na poesia, nomes opostos: ABSTRACIONISMO e CONCRETISMO.

De fato, eles não sabem o que querem.

O que eu queria mesmo era mostrar a divergência de nomes e xingar um pouco esses movimentos paralelos, irmãos e absurdamente contrários. Acho que já consegui.

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5 Responses to “Indecisão Modernista”


  1. 1 piolho abril 17, 2007 às 3:52 pm

    Leonardo,

    Será que você não está mais próximo do que imagina dos que “gostam do que absolutamente não compreendem”? Ou será que você “não pressente, nem suspeita do que pode estar ali representado”?

    Talvez seja melhor se inteirar um pouco mais dos movimentos modernos e da contribuição, por exemplo, do concretismo para a hodierna poesia brasileira . E depois, bem depois, e lá longe derivamos esta sua pseudociência.

  2. 2 Mateus Yuri Passos abril 17, 2007 às 5:24 pm

    heh.

    bem notado — interessante como essas duas vanguardas optaram por nomes/bandeiras tão opostas.

    também não sou um fã do concretismo, mas já é um exagero chamá-lo de arte “burríssima”. a questão é como o arranjo espacial pode, de alguma forma, contribuir com o conteúdo.
    (caso não contribua, o superlativo serve)

  3. 3 Leonardo Saraiva abril 17, 2007 às 11:57 pm

    senhores, um detalhe.
    vez por outra, aquiles põe a mão no meu ombro, e eu saio chutando tudo que vejo pela frente.

    [continuo não gostando do concretismo, mas fui um pouco grosso.]

    não me levem tão a sério, peço-lhes encarecidamente. sou anarco-niilista por caráter ou idade.

  4. 4 Bruno Mendes abril 20, 2007 às 3:56 pm

    “Como pode ser bom algo que não inquieta, não eleva nem repugna, ou seja, que é absolutamente indiferente?”

    Não inquieta? Nem repugna? Se não faz pelo menos isso, não compreendo os argumentos emotivamente expostos.

    Acho muito bom ler e ouvir pontos de vistas opostos aos meus, desde que a racionalidade sobreponha a emoção. Não entendo de arte abstrata e por isso não sairei em defesa dela; porém, simplesmente dizer que não faz sentido sem procurá-lo – mesmo que essa busca seja exaustiva e desmotivadora – soa-me como uma opinião preguiçosa e ultraconservadora. O mesmo em dizer que o concretismo, ou qualquer coisa que fuja aos modelos estabelecidos como poesia “pura”, é puramente ruim.

    Enfim, mais discussões interessantes pra Arcádia.

  5. 5 Tomaz Amorim abril 22, 2007 às 11:56 am

    Ah Leo, discordo de você em muitíssimos pontos. Em mais pontos do que eu posso explicitar porque, afinal, nem você mesmo explicitou suas críticas, não? Pensemos bem, qual era sua intenção ao ofender ou criticar dois grandes movimentos artísticos (e aqui não estou dizendo se gosto ou não deles), com monstruosos UM parágrafo sobre cada um. Não estou defendendo a prolixidade, longe de mim, mas não empobreçamos a discussão. O que você fez me sua mais a agressão barata, conversa de Arcádia, do que a texto que se propõe discutivo. Se esconder atrás da idade também é algo que não vale. Se você acha, e disso duvido já que considero você um dos alunos mais bem dotados do nosso ano, que não está apto a escrever um artigo sobre temas tão complicados… Ora, não o faça! Há tantos outros temas, mais modestos, e interessantes, não?
    Digo isso justamente por perceber em mim, também e principalmente, estas manias de grandeza, de querer abraçar o mundo com os braços.

    Ficam minhas sinceras congratulações pela ousadia, e essa é uma grande qualidade para alguém que se propõe crítico, e meu humilde conselho.


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