CONTRACOMUNICAÇÃO – A desmistificação da arte na era da comunicação eletrônica.

Por Leonardo Saraiva

“Acho que ele ainda acredita na Grande Arte” — Pignatari sobre Gullar.

 

Décio Pignatari é advogado, publicitário, professor e ensaísta. Ah, sim, poeta também; mas segundo as idéias expostas em seu livro CONTRACOMUNICAÇÃO (a edição que eu li é de 1973), não é versista. Pois, segundo ele, estamos na “crise do verso”, algo que encara como um grande paradigma da comunicação poética. Baseando-nos em valores ultrapassados e estáticos, Pignatari diz que estamos deixando de lado grandes nomes (cita Sousândrade, Volpi e Oswald) para valorizar outros não tão grandes assim (Mário, Portinari, Castro Alves e Chico Buarque). As elites encarregadas da seleção de um cânone seriam obsoletas, conservadoras e carentes de informação estrutural; ele escreve que “a poesia brasileira continua a se analisada pelo seu ‘conteúdo’: (…) já se viu coisa mais ridícula?”.

Apesar de não concordar muito com as propostas concretistas do senhor Pignatari, devo admitir que existem várias questões pertinentes em seu livro. Grande parte dessas preocupações são relacionadas à Comunicação artística (o “C” maiúsculo é meu) inserida no contexto contemporâneo, onde temos meios de propagação informativa de massa, como televisão e computadores (sua previsão a respeito da importância destes é digna de aplausos). Quais as formas de utilizar as capacidades audio-táctil-visuais desses meios em prol da transmissão da arte? Essa é uma pergunta que grita em várias páginas do seu livro. Uma boa pergunta.

Falando de “forma-conteúdo” (e não “forma E conteúdo), o escritor também erige considerações interessantíssimas, e utiliza o famoso conceito de Marshall McLuhan (“o meio é a mensagem”) para julgar diversas manifestações artísticas e comunicativas. O grande problema de Pignatari surge quando tenta responder a sua questão no âmbito da poesia. Ele acerta bastante (e quase me converto à sua religião) quando cita Poe e seu “know-how” da composição poética; mas peca em momentos mais radicais do livro, que defendem a poesia “ready-made” e acabam gerando frases como esta: “não há mais tempo para textos, só para títulos”. Décio me confunde ao ficar entre duas alternativas diametralmente opostas: a poesia de fácil digestão e rápido consumo (poema-visual, poema-interativo, etc) e a poesia de linguagem própria, intricada, labiríntica (como Áporo, de Drummond). De qualquer forma, as duas alternativas pessoalmente me repugnam. Sou bem conservador, e creio que a poesia é feita de língua, não de linguagem (contrariando o senhor Pignatari). De decassílabos, e não de aliterações verticais.

Fiquei com a impressão geral de que, na conjuntura contemporânea de comunicação, bombardeados que somos por informações de todos os tipos (jornalísticas, publicitárias, especializadas), temos que adaptar a poesia ao dinamismo característico dessa época. Adaptá-la através de “estruturação significante”, onde o meio transmissor do poema (sua disposição no papel) fosse, por si só, um suporte da significação. Conteúdo e Significado assumem posições tão distintas em Décio que, para a total compreensão de suas idéias, só mesmo lendo o livro (ou conversando com ele na mesa de um bar). Acredito que as considerações estruturais (não estruturalistas!) de Pignatari são raras e caras como o tempero na Idade Média – mas ele está cozinhando uma panela de arroz com um quilo de sal.

Em outros momentos, discorrendo sobre o modelo televisivo da TV Cultura, Pignatari é sobriamente crítico, apontando erros e propondo soluções. Observando o modelo de universidades, que separam o meio acadêmico teórico da prática exigida pelo mercado, Décio cutuca a ferida de forma espetacular.

No geral, o livro merece leitura atenta e respeitosa. Apesar de ser uma panacéia geral de assuntos pouco conectados entre si (considerações sobre o modelo universitário, entrevistas, críticas à comunicação televisiva, ensaios, destrinchamentos poéticos, quadrinhos dispersos e crônicas de futebol!), possui muitos pontos curiosos e inteligentes. Mas é, na minha humilde opinião pessoal, poeticamente fracassado.

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2 Responses to “CONTRACOMUNICAÇÃO – A desmistificação da arte na era da comunicação eletrônica.”


  1. 1 Louis XIV maio 16, 2007 às 1:14 am

    Ouais, qui a écrit ce texte, merde ?

    Hélas !

  2. 2 Tomaz Amorim maio 17, 2007 às 8:52 pm

    Opa, Leo. Rapaz achei esse seu texto bom. Conseguiu fazer uma resenha opinativa. A acidez fica por sua conta. Me interessei, vou ver se leio o livro e discutimos numa mesa de bar.

    Abraço


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