Sobre livros e textos

Por Jacqueline Lafloufa e Werner Plaas

Digital serial killer?
A primeira vítima da tecnologia digital foi a máquina de escrever, em seguida sucumbiram o LP, o tape, o videocassete e o CD. O negativo fotográfico resistiu enquanto pôde, mas afinal também jogou a toalha. Será que a tecnologia digital também será capaz de aniquilar a mídia impressa?

Achamos que o livro não vai morrer; o que vai mudar decisivamente é a forma como lidamos com o objeto livro.

O atual caminho do livro
Até chegar nas mãos do leitor, o livro passa por um longo processo de produção, revisão, controle e distribuição. Conhecer esse caminho pode ajudar a desvendar algumas questões cruciais. Quando o original chega à editora, ela passa por um processo de seleção, executado por um editor, que deve avaliar se ela se enquadra na linha editorial da empresa e tentar prever a repercussão dela (numa editora pública, deve-se pensar na repercussão acadêmica da obra, enquanto a editora comercial avalia o retorno financeiro). Depois de aprovada, a obra passa por revisão, diagramação e arte. Todos esses procedimentos devem ser aprovados tanto pelo autor como pelo editor responsável, só então a publicação pode ser impressa. A etapa de impressão é bastante delicada e cara, devido principalmente ao custo do papel. Por isso, normalmente se faz uma prova da impressão antes de mandar tudo para a máquina. A prova é de baixa qualidade, mas bastante útil para conferir margens, cortes, ordem das páginas e outros detalhes mais.
É na distribuição que as coisas se complicam, pois como a editora precisa bancar o custo produção, ela projeta um preço de venda que possa ser lucrativo. E assim distribui as publicações, em regime de consignação, às livrarias. Acontece que as livrarias exigem um desconto mínimo de 50% sobre o preço de venda estipulado pela editora. Ou seja, se o custo de produção de um livro for R$ 20, e a editora projetar o preço de venda para R$ 100, a livraria pagará apenas R$ 50 reais por ele. Dessa forma, a editora se vê forçada a dobrar ou triplicar o preço estipulado de venda, para receber o valor justo.
É por isso que os livros no Brasil são cronicamente caros.
Então você pergunta: “Por que as editoras não vendem diretamente para os leitores?” Elas até podem, e algumas até o fazem, mas isso causa um impasse diplomático entre as editoras e as livrarias distribuidoras. As livrarias podem, por exemplo, promover um boicote a editoras que façam vendas diretas aos leitores, pois isso atrapalha a dinâmica dos negócios. Assim, as editoras ficam amarradas aos distribuidores, que tem uma maior abrangência de público.

O livro genérico
Num futuro não tão longínquo, ali na salinha onde se oferecem serviços de fotocópias, existirá um equipamento da mesma dimensão da atual fotocopiadora que terá a capacidade de produzir livros genéricos na hora: impressão frente e verso a laser em courier new, com capinha plastificada e as folhas coladas. O preço incluirá a parcela de direitos autorais, como se dá hoje ao comprar uma música legalmente pela internet, como na iTunes Store.

É evidente que as gravadoras, ops, as editoras vão tentar adiar este momento tanto quanto puderem, com boicotes e ameças, mas será inevitável.

Embora as editoras e livrarias aleguem que isto implodiria seus negócios, sempre haverá espaço para o livro encadernado, bem acabado e cheiroso, objeto de fetiche dos leitores. Talvez o preço do livro encadernado até suba, mas não deixará de ter compradores.

A possibilidade de fazer uma cópia genérica talvez reduza, mas não vai extinguir a venda de livros bem acabados. Autores, livrarias e editoras terão que se adaptar.

O sublime papel
Se o objetivo das editoras de universidade sérias é difundir obras de qualidade inegável, selecionadas com grande rigor acadêmico, por que não simplesmente disponibilizar os arquivos em pdf no site da própria editora para quem quiser comprar para baixar? Já que ela recebe verba da universidade, poderia aplicar parte do dinheiro na pré-produção, ou seja, com tradução, direitos autorais, revisão e seleção de boa qualidade.

E além do arquivo no site, poderia se fazer uma produção chique em papel e mantê-la em estoque.

A versão em papel certamente seria mais cara e seria vendida on-line ou off-line (em lojas físicas), como em qualquer livraria. É evidente que as distribuidoras e livrarias também vão tentar boicotar esta idéia com unhas e dentes.
Por enquanto elas detêm todo o poder, como as gravadoras de música detinham.
Será apenas uma questão de tempo para que a situação se altere?

A Amazon vai secar?
Atualmente as grandes livrarias on-line como a Livraria Cultura e a Amazon funcionam como os principais portais para se achar livros para comprar.

Parece-nos que o Google Booksearch poderia quebrar este paradigma, pois este serviço gratuito do Google informa a localização dos livros para compra, empréstimo, ou impressão integral, caso já não esteja mais protegido por direitos autorais.
As reações das editoras ao Google Booksearch têm sido violentas, e algumas já estão processando o Google. A discussão é quente.

Direitos autorais apenas para a elite
Acreditamos que um escritor poderá ganhar dinheiro escrevendo e publicando best-sellers de papel em editoras famosas, mas serão apenas os mega-stars. Autores que ainda estão chafurdando no limbo do ostracismo terão que construir sua notoriedade na internet.
E de certa forma isso já está acontecendo. Existem hoje diversos autores conhecidos na internet, que estão ganhando “status”. Eles distribuem suas obras em sites, blogs ou em formato digital interativo (que possibilita até mesmo ver as páginas virando) e assim vão mostrando seu talento, até serem reconhecidos. Não são raros os casos de blogs que viraram livros, como por exemplo o Balde de Gelo.
Não adianta ter nojo do mercado e da banalidade, esta é a nova lei da selva.
Não será possível viver de direitos autorais de venda de livros de papel exceto se você for um Paulo Coelho, que agrada a todos, ou quando você tiver chegado ao topo do Olimpo do cânone literário.

Quem quer comprar?
Há quem diga que se o texto está disponível de graça na internet, ninguém vai comprar o livro de papel.
Não necessariamente.
Muitos ouvintes de música não dispensam ouvir as músicas no cd original, pois a qualidade do som, com os detalhes de graves e agudos é melhor do que num mp3 baixado da internet.

Brochuras e discos sempre serão comprados por leitores e ouvintes exigentes, mas vão se tornar um produtos preciosos.

Nós já mudamos a forma como lidamos com a informação, imagens, sons, textos e com a comunicação interpessoal.
E tudo isso graças a internet. E pra quem acha que tudo isso é o apocalipse, fica a frase de Nietzsche:
É necessário o caos para que possa surgir uma estrela cintilante“.

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2 Responses to “Sobre livros e textos”


  1. 1 Tomaz Amorim maio 27, 2007 às 1:28 am

    Vocês dão como exemplo de objetos que “sucumbiram” à tecnologia digital o LP, o tape, o videocassete e o CD. Mas estas coisas não sucumbiram completamente, não? Não há gente até hoje que coleciona LPs raros? Acredito que alguns destes meios impressos, como o livro, sobreviverão, mas apenas como interesse de colecionar, fetiche.
    Do caminhos que o livro faz, como vocês dizem, até o leitor, aponto como diferença fundamental, da mídia digital em relação a mídia de papel, a ausência, ou, pelo menos, forte perda de importância, do papel do editor. O carrasco que faz sinal de positivo ou negativo com o dedo, e dá um chance ou acaba com os sonhos de um jovem escritor. O espaço, por excelência, da mídia digital é a internet. Hoje em dia, qualquer um pode ter um blog gratuito. Na rede, na maioria das vezes, o que torna um escritor conhecido ou não é a qualidade do seu texto. Se você escreve bons textos, ganha visitas e popularidade. Se não, não. Assim, as chances de você se tornar um escritor conhecido não depende do seu enquadramento com “as políticas da editora”, mas da qualidade que seus leitores vêem nos seus textos.
    A idéia do livro genérico me parece absurda. Até este momento no texto de vocês, não falaram da internet, dos notebooks, dos readers, dos computadores de 100 dólares do governo. Estes pontos são fundamentais porque levam à questão: por que eu iria querer imprimir, metade de um livro, se posso ler ele na íntegra, fazer anotações (e tudo o mais que o papel permite), num computador? Mais, o computador tem uma infinitude de vantagens sobre o papel. Quando quer achar um termo o Ctrl+F está à mão; se quer movimentar parágrafos, sem problemas; quer verificar uma versão anterior do seu texto, fácil. Sem contar com todos os benefícios que um computador leitor e escrevedor tem, com o meio ambiente por exemplo, diminui a exclusão por dinheiro, pois afinal comprar um e-book é muito mais barato do que um livro, e por aí vai. Com todas estas vantagens dos computadores a idéia da máquina de xerox encadernadora parece muito ultrapassada.
    Quando vocês falam em PDF tocam no ponto centra da questão, mas falam como se fosse um mero detalhe. No mundo como o de hoje, porque comprar um livro de papel (que imagino deva sair 10 vezes mais caro) ao invés de um PDF que poderá estar no seu computador de bolso (acompanhado de mais algumas centenas…)? Vocês não respondem a pergunta, ao contrário, voltam para o fetichismo do papel. Quando falam do Google é o mesmo. O Google é das empresas mais inovadoras desde o surgimento da internet. Ele revolucionou em muito a maneira com que navegamos na internet. Seu sistema de buscas, além de facilitar e democratizar o acesso a informação, abriu espaço para que novos conteúdos fossem criados. Você pode hoje, digitando um termo no Oráculo, encontrar respostas tanto no New York Times, quanto no blog da Jacque. O Google Books já começou com o processo. Semana passada eles terminaram de digitalizar uma biblioteca inteira (!) de uma universidade indiana. Eles parecem, como sempre, estar um passo à frente. A digitalização dos livros é, se não o fim, pelo menos uma revolução com o modo das editoras. Assim como foi para as gravadoras. Nós temos hoje na mídia grandes bandas como o Arctic Monkeys na Inglaterra ou o Teatro Mágico, no Brasil, que se lançaram através de gravações em estúdios domésticos, produção com softwares livres, e divulgação através de sites na internet (como o MySpace e o Multiply). Se a música, que é um mercado muito maior do que o mercado literário, pelo menos no Brasil, teve de se adequar as novas regras, por que isto não aconteceria com os livros? Na música houve dois marcos: Napster, que revolucionou a maneira de se compartilhar músicas, tornou a Internet algo como um território livre, e o iPod, que te deixou levar dezenas de músicas no bolso. Chuto no Blog, como o Napster literário, e nos Readers (ou palms de 100 dólares) como iPods.
    O que vocês quiseram dizer quanto aos direitos autorais? Bem, já discordei desta continuidade da venda de livros de papel, num mundo de alta tecnologia isto, para mim, não faz o menor sentido (pobre árvores!). Ou acontece o fim dos direitos autorais (o que é pouquíssimo provável neste mundo capitalista) ou eles são alterados e se adaptam à rede. Fico com a segunda opção.
    Comprar livro original porque gosta do autor? Assim como se compra CD´s? Olha, as pessoas que têm acesso a mp3 compram cd´s hoje em dia por apenas dois motivos: ou porque querem dar uma grana e incentivar o artista que curtem (porque atualmente esta é a única maneira, no futuro, provavelmente, haverá venda on-line de música, ou alguma espécie de contribuição voluntária para o artista, como um mecenato) ou por fetiche. Com os livros será a mesma coisa.
    “Brochuras e discos sempre serão comprados por leitores e ouvintes exigentes, mas vão se tornar um produtos preciosos”. Leitores e ouvintes exigentes? Quer dizer que a leitura flui melhor no papel do que no monitor? Han… Bem, por tudo isto que escrevi, discordo desta afirmação. Livro vai ser coisa de museu.

  2. 2 discordo! janeiro 15, 2008 às 9:37 am

    O computador também tem algumas desvantagens… veja que tanto as antigas vitrolas quanto os aparelhos de som tem mais ou menos o mesmo tamanho, precisa de energia eletrica para funcionar e são ambos bens de consumo relativamente caros e visados – ainda que o aparelho de som bem menos. O computador precisa de fornecimento de energia eletrica constante, é um bem visado – mesmo os computadores de 100 dolares do governo: a chance de ser assaltado ao ler um livro despreocupadamente em um ponto de onibus é muito menor do que ao ler o mesmo livro em um notebook, além do medo de danifica-lo. Será mesmo que o livro será coisa de museu? Fora que mesmo com o computador de 100 dolares do governo, isso ainda o torna distante para amplos segmentos da população… se o computador seria mais pratico para o academico que precisa consultar 20 livros diariamente para escrever artigos, será que ele será mais pratico para o leitor comum e ocasional que procura um livro como distração para ler no caminho para casa ou depois do trabalho?


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